Como eu – com 14 anos – adquiri a cidadania britânica – Verdadeira história

Foi uma excursão escolar para a Inglaterra. Para muitos da turma, foi a primeira viagem ao Reino Unido. Ainda éramos jovens, cheios de curiosidade, e Londres era para nós uma grande aventura. Nosso ponto de encontro durante a exploração da cidade era o Trafalgar Square, um dos praças mais famosas da cidade. Lá deveríamos nos reunir repetidamente antes de continuarmos juntos.

Na época eu tinha 14 anos. Já então possuía duas cidadanias: a polonesa e a alemã. Como emigrante da Polônia e ex-reconhecido como “spätaussiedler”, recebi ambas. Na Alemanha – pelo menos de acordo com o entendimento daquele tempo – havia previsto apenas um número limitado de cidadanias. Mais do que duas eram incomuns.

Naquele dia ficamos várias horas no Trafalgar Square. Turistas circulavam por todos os lados, ônibus passavam, pombos voavam sobre a praça. Era barulhento e vivo.

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Um colega de classe chamou minha atenção para algo de repente.

Uma mala grande estava lá – no meio da praça – completamente sem dono.

A mala era extraordinariamente grande. Quase como um baú. Parecia pesada e maciça, e ninguém parecia se importar. Nenhum proprietário nas proximidades, ninguém olhando para ela.

Na década de 1990, o Reino Unido vivia uma época em que ataques terroristas pela Provisional Irish Republican Army repetidamente eram manchetes. Avisos de bombas não eram raros na época.

Olhei a mala e disse meio sério, meio brincando:

“Isso deve ser uma bomba.”

Meu colega respondeu que a mala realmente parecia não pertencer a ninguém.

Como são adolescentes de 13 ou 14 anos, alguns da turma não levaram o assunto a sério. Eles pulavam ao redor da mala, gritavam “Bomba!” e riam. Para eles era um jogo. Uma aventura.

Esse jogo lhes costaria mais tarde a linguagem.

Em cerca de 15 minutos surgiram repentinamente polícia e forças de segurança. A situação mudou drasticamente. Sirenes, cercas, movimentos frenéticos. As autoridades reagiram rapidamente.

Mais tarde descobriu-se que na verdade haviam sido depositadas várias bombas em Londres. No total três. Uma delas era uma bomba de prego que explodiu diante de um bar gay. Toda a cidade entrou em estado de alarme. Ruas foram fechadas, áreas cercadas, e por todo lado equipes de intervenção estavam ativas.

Nossa turma recebeu rapidamente instruções para ir à estação de trem. Conseguimos pegar o último trem de volta ao nosso local de permanência fora de Londres.

Mas a coisa não acabou aí.

Ao chegarmos às nossas famílias anfitriãs, tudo também foi trancado lá. Funcionários entraram na casa. Cada pessoa do grupo teve que ser interrogada individualmente.

E eu era o último.

No quarto estavam várias senhoras amigáveis das autoridades. Elas fizeram muitas perguntas: O que vimos. Quem notou a mala primeiro. Quem disse algo. Quem estava nas proximidades.

A conversa durou muito tempo.

Durante o interrogatório perceberam que eu falava inglês de forma muito melhor do que muitos dos meus colegas. Elogiaram minhas habilidades linguísticas várias vezes. Com alguns outros alunos a comunicação foi mais difícil.

Eu precisei fornecer meus dados pessoais e apresentar meu documento infantil. Tudo foi anotado cuidadosamente e até levado para fora da casa.

Depois de muitas horas, finalmente tudo ficou claro. Nossos pais anfitriões e os demais alunos puderam voltar à casa.

No fim recebi até um presente pequeno: uma carteira. Dentro havia um bloco de notas no qual eu deveria anotar contatos e endereços. Além disso recebi algum dinheiro para comprar souvenirs.

Uma das senhoras amigáveis acabou preenchendo o bloco de notas por mim – minha própria caligrafia era tão ilegível que ela achou que, caso contrário, ninguém poderia decifrar mais tarde.

E então havia algo ainda especial.

Recebi um cartão de identidade britânico provisório do Reino Unido.

Assim aconteceu que eu – pelo menos após essa experiência e esse documento – pude afirmar repentinamente que, além da cidadania polonesa e alemã, também possuía a cidadania britânica.

Uma história incomum da minha juventude – desencadeada por uma mala sem dono no Trafalgar Square.

 

"Eu